História
Uma mala cheia de histórias, encadernadas na forma de livros ou impressas na alma de gente que mudou vidas, completa 30 anos este mês. Trata-se do Programa de Extensão Bibliotecária Mala do Livro – Biblioteca Domiciliar, iniciativa de estado do GDF sob o guarda-chuva da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec), formalizado pelo Decreto nº 17.927, de 20 de dezembro de 1996, seis anos depois da experiência pioneira que surgiu da iniciativa da bibliotecária Neusa Dourado Freire, hoje com 80 anos.
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Tudo começou na então recém-implantada Região Administrativa (RA) de Samambaia, criada em 1989 para assentar famílias oriundas de invasões em diversas partes do Distrito Federal. “Com uma explosão demográfica superior ao seu desenvolvimento urbanístico, social e de infraestrutura, Samambaia contava apenas com uma pequena biblioteca localizada na Casa da Cultura”, registra Neusa na edição de janeiro-junho de 2020 da “Revista Eletrônica da Associação de Bibliotecários e Profissionais da Ciência da Informação (ABDF)”, que a homenageia em editorial.
NEUSA, A CONTADORA DE HISTÓRIAS
- Neusa Dourado (de óculos) em 1990
- Walda Antunes (á direita) e Maria José (centro)
Neusa relata que um colega, bibliotecário como ela, mencionou em certa ocasião que, na França, tinha ouvido falar de outra colega de profissão, Geneviève Patte, que levava livros numa bandeja para subúrbios de Paris, interessada em alcançar crianças distantes de equipamentos de leitura. Elas liam nas praças quando o clima permitia. Aquilo ficou na cabeça de Neusa, que logo imaginou substituir as bandejas por cestas de palha, mais próximas de nossa identidade, para acomodar os pequenos tesouros da humanidade. “Adquiri duas cestas, selecionei um acervo básico e fui confiante a Samambaia, mas não encontrei praça com espaços para acomodar meu serviço de extensão”, rememora.
Engana-se quem acha que Neusa, natural da Bahia, esmoreceu. Movida por uma espécie de mantra – “transformar o não leitor em leitor” –, procurou líderes na comunidade local e propôs a criação de bibliotecas domiciliares. Eles entrariam com um espaço em suas casas, a referência na comunidade e o desejo de ter livros por perto; a Secec forneceria acervo e capacitação para lidar com empréstimos e devoluções. “Retomamos as duas cestas e as entregamos nas residências dos líderes comunitários Joana D’Arc Marçau e Antônio de Araújo, os pioneiros. Em 1995, alocamos mais um acervo em Samambaia e, a partir dessa data, a Mala do Livro rompeu suas fronteiras de origem”, conta.